O que você continua procurando, mesmo quando quer parar?
“Os seres humanos só enxergam o que lhes convém e acham que isso é tudo” — Michiko Ayoama
A crença de que os livros possuem a capacidade de transformar a vida das pessoas sempre me cativou e é graças aos milhares deles que me trouxeram até aqui, quando decidi dar a chance de realizar uma parte dos meus sonhos e escrever. Se sentir acolhida pelas palavras de uma pessoa totalmente desconhecida, que carrega memórias tão diferentes de mim, é uma das formas de como a leitura consegue conectar almas de distintas realidades e responder a perguntas como “O que você procura?”.
Em cinco histórias independentes, composta por pessoas em diferentes faixas etárias e realidades distintas, lidando com dilemas diários como parte de suas próprias perspectivas sobre a vida, os livros sugeridos pela Sra. Komachi, a bibliotecária do Centro Comunitário de Tokyo, conseguiram despertar sonhos, ideias e a coragem tão encolhida em cada um desses protagonistas que, de alguma forma, acabam tendo seus destinos entrelaçados quando questionados sobre o que procuravam na biblioteca — ou melhor, o que tanto procuravam em suas vidas.
Há um tempo atrás, havia sugerido o livro “A biblioteca dos sonhos secretos”, de Michiko Aoyama, em uma das listas de leituras capazes de aquecer os dias de inverno (clique aqui para saber mais), pois foi assim que me senti quando abri a primeira página dele numa gélida tarde de viagem. As horas dentro de um ônibus para uma introvertida é uma das melhores oportunidades para reorganizar pensamentos, lembrar de cenas vergonhosas, se deixar levar por devaneios ao som de uma playlist previamente elaborada e, claro, aproveitar uma boa leitura.
A incerteza do primeiro passo
Alguém que não se sentia em casa, ou melhor, não se sentia pertencente a lugar nenhum, pois nenhum deles parecia ser parte sua — talvez eu estivesse pensando em um ambiente físico, mas havia aquele resquício de que há algo que não se encaixa em minha vida ainda, pela qual anseio por uma resposta antes de enfrentar o conformismo. Dessa mesma forma, é como o livro começa quando conheci Tomoka, uma jovem de 21 anos que acha o seu trabalho inútil e, mesmo assim, não sente-se pronta para dar um passo diferente.
Tomoka se descreve como alguém que “Não tenho nenhum projeto pessoal incrível ou divertido, não tenho sonhos nem perspectivas. O que tenho é uma vida inútil”, o que, para mim, é uma expressão tão bem compartilhada por milhares de jovens no começo da vida adulta. Uma jovem com um sonho de crescer teve que acompanhar suas expectativas entrarem em declínio ao se deparar com os desafios propostos na fase dos 20 anos ao ponto de que o seu único objetivo se tornou a sobrevivência. Poder chegar em casa depois de um longo dia de trabalho, comer o que tiver na dispensa, pois estava cansada demais ou sem dinheiro para se dar ao luxo de algo que lhe deixasse sorrir um pouco, dormir e voltar para a mesma rotina. Muito familiar, não?
O acaso acolheu Tomoka — em uma conversa breve com um amigo que também havia passado por algo semelhante que ela decidiu dar uma chance de fazer algo diferente, ainda que sem expectativas de obter grandes resultados, e procurar pelo Centro Comunitário de seu bairro, onde se deparou com o que tanto evitava se questionar: “O que você procura?”.
Assim como o desenvolvimento da história de Tomoka, há outros quatro personagens que, entre seus 30, 40 e 60 anos são alvos do mesmo questionamento quando suas vidas entram em uma etapa que não condiz com suas expectativas — ou aquelas que nem ao menos chegaram a ser cogitadas, como em um dos personagens. De certo modo, foram leituras que também não condiziam com seus objetivos iniciais e ressignificaram suas formas de interpretar tais realidades.
O impacto de pensamentos disfuncionais
Entre teorias, abordagens e artigos, há uma das formas de trabalhar em Psicologia que permitiu mudar o sentido de muitas situações em minha vida. No campo da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), a qual estudo atualmente, buscamos mostrar àqueles que nos procuram que os pensamentos são gerados a partir das interpretações de determinadas situações e influenciam nas nossas reações, sejam elas emocionais ou comportamentais.
Para entendermos esses pensamentos, também precisamos considerar as crenças que influenciam neles, estas construídas e solidificadas a partir da nossa história de vida, das regras, atitudes e pressupostos que carregamos ao decorrer dela. Assim, buscamos avaliar e mudar os “pensamentos disfuncionais” em terapia, aqueles que nos colocam em sofrimento psíquico e, dessa forma, podemos provocar mudanças no humor e no comportamento.
Na TCC, há um lembrete que trazemos ao outro nas sessões e, para mim, condiz muito com a história abordada no livro, onde:
“Só porque eu penso alguma coisa, isso não quer dizer que necessariamente seja verdade. Quando eu mudar meus pensamentos inúteis ou imprecisos, provavelmente me sentirei melhor.” — Judith Beck, em “Terapia Cognitiva-Comportamental: teoria e prática”
Quando li “A biblioteca dos sonhos secretos”, foi inevitável a relação que encontrava entre o livro com a Psicologia, especificamente com os estudos de Aaron Beck. Se a autora conhecia sobre esse modelo de terapia eu não posso afirmar, mas Michiko Aoyama nos propõe a aventurar em poucas páginas e, junto com os personagens, ressignificar essas interpretações que temos e realizamos de forma tão automática que nos impede de ver e acreditar em uma nova forma de pensar — assim como discutido na teoria —, mas a partir da ideia de que livros se tornam a nossa ponte para entender situações simples que sempre parecem tão complexas diante de nós.
“Não há certeza de nada na vida. Mas o lado bom disso é que, se não há segurança de que as coisas vão dar certo, também não há garantias de que vão dar errado” — “A biblioteca dos sonhos”, de Michiko Aoyama.
Eu poderia fazer mais uma relação sobre a psicologia e esse livro, mas acabaria dando um pequeno spoiler surpresa que ocorre no final do livro, quando você finalmente entenderá os motivos da Sra. Komachi recomendar leituras inusitadas aos que procuram pela biblioteca. É divertido, simples e, principalmente, significativo ao conseguir fechar a história que te faz querer agradecê-la pessoalmente.
Então, o que procuro?
Quando terminei a leitura, a frase “O que você procura?” continuou a perambular em minha mente, pois fugir de encarar a verdade é apenas uma forma de prolongar a tortura em meus pensamentos, ao invés de finalmente entendê-los. Naquela época, procurava por uma leitura que pudesse me fazer sentir algo; ao estarmos em nossa companhia, percebemos as diversas formas superficiais que agimos ao longo dos dias e nada parecia se encaixar.
Acho que estou encontrando a resposta em meu próprio tempo e se pudesse dizer algo a Sra. Komachi nesse momento é que os livros são mesmo a melhor forma de conectar pessoas e, principalmente, de dar uma chance para reencontrar a nós mesmos que, por alguma razão, abandonamos em algum lugar.
Aqueles cujos sonhos escaparam entre os dedos para o desconhecido; aqueles que se conformam com sua realidade, pois mais uma expectativa criada parece se tornar mais uma razão para se decepcionar e preferem evitá-la por isso; alguém que não estava preparada para lidar com situações não-planejadas, pois não condiz com a realidade que você tanto lutou para ter; e, por fim, aqueles que não sabem como se despedir.
E, inevitavelmente, é uma leitura para aqueles que, ainda em frente às suas dificuldades, querem ter a chance de saber o que há além delas.
Então, querido leitor, “O que você procura?”
“Eu continuo procurando. Continuo procurando um lugar onde minha existência seja aceita. Onde eu possa ser quem eu sou, em paz.” — “A biblioteca dos sonhos”, de Michiko Aoyama.
Este post te dedica a seguinte música:
So Far Away – Agust D (feat. SURAN)
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Adorei como você conectou essa leitura com a psicologia! Li esse livro e, apesar de ter 20 anos, acabei me identificando de formas diferentes com todas as histórias.
Amei demais o texto e o livro e como você conectou com o TCC (amo que é o modelo da minha terapia então né identifiquei muito)